Por Ana Delai

Antes de tudo, quem é esse “Earl Grey”? É Charles Grey, o 2º Conde (Earl) Grey, primeiro-ministro britânico entre 1830 e 1834 — figura de reformas importantes. O chá que leva seu título não é uma receita escrita por ele: é um blend de chá preto com bergamota que ganhou o mundo e, com o tempo, o nome do conde.

Como nasce um clássico (sem um único autor)

O nome “Earl Grey tea” não apareceu num dia só. Ele foi brotando aos poucos: em embalagens, vitrines, anúncios, no pedido repetido nos salões. Primeiro veio o hábito — chá preto perfumado com bergamota. Depois, o rótulo que pegou. Quando a cidade começa a repetir um nome, ele vira tradição.

Piccadilly, rapidinho

Para situar: Piccadilly é uma avenida famosa no centro de Londres. Muitas vitrines, tradição, movimento. Ali, casas de chá, confeitarias e lojas elegantes ensinaram a cidade a olhar para o chá. O endereço certo ajuda uma história a ganhar brilho — e a ficar.

Por que houve disputa? Porque houve sucesso

Só existe briga por paternidade quando a criança é um sucesso. O Earl Grey foi um fenômeno de gosto: cítrico, perfumado, fácil de reconhecer. Era o chá que anunciava presença no ar antes de chegar à xícara. Londres percebeu rápido que havia ali um símbolo — moderno e, ao mesmo tempo, “à inglesa”.

Três motores explicam a disputa:

  1. Desejo — a bergamota cria memória instantânea.
  2. Visibilidade — Piccadilly e arredores eram palco de vitrines e anúncios.
  3. Repetição — quando muita gente pede o mesmo chá, o nome vira capital cultural.

Jacksons of Piccadilly: a versão contada na vitrine

Nos anos 1920, a Jacksons publicou anúncios dizendo ter “introduzido” o Earl Grey em 1836. Elegante de ler — e importante porque mostra que a própria casa contava essa história em voz alta.
Prova definitiva de criação? Não. É uma reivindicação que circulou, marcou a memória da cidade e ajudou a fixar o imaginário.

Twinings: a força da tradição que atravessa séculos

A Twinings sustenta há muito tempo a ligação tradicional com a família Grey — uma relação que a própria família já reforçou publicamente. Não é “ato de cartório” do século XIX, mas tem peso simbólico: a tradição britânica adora um fio que costure passado e presente, e a Twinings costurou esse fio por décadas.

O teatro do varejo: como Londres transformou chá em emblema

Londres sempre soube encenar o cotidiano. O Earl Grey ganhou:

  • Roteiro: um conde, uma lenda simpática, um perfume inconfundível.
  • Cenário: vitrines, cartazes, caixas bonitas, endereços que pesam.
  • Trilha sonora: o murmúrio dos salões, a conversa das mesas, o tilintar da porcelana.

Quando um produto tem roteiro, cenário e trilha, ele vira personagem. E personagens disputam holofote.

Como o nome se espalhou (do salão ao jornal)

Pense em ondas. Primeiro, os clubes e as casas de chá; depois, anúncios e colunas que citavam o blend; por fim, a vida doméstica — latas na despensa, visitas pedindo “o de bergamota”. O nome atravessa a cidade e, quando você vê, já cruzou o canal, o oceano, as décadas.

O sabor que explica o mito

Parte do segredo é sensorial: o Earl Grey é clarinho de entender e longo de lembrar.
Nariz: casca de laranja amarga, flor de laranjeira.
Boca: base preta que pode ser mais maltada (Assam/Ceylon) ou mais elegante e amadeirada (Keemun).
Memória: final perfumado que fica e, no dia seguinte, reaparece como luz na lembrança.

Quando o sabor explica a fama, a história corre sozinha.

O que dá para afirmar (sem perder a poesia)

— O nome Earl Grey se firmou com o tempo, por hábito e circulação — não por decreto.
— A Jacksons dizia, em anúncios antigos, ter apresentado o blend em 1836.
— A Twinings carrega a tradição junto à família Grey até hoje.
Documento único e conclusivo do século XIX? Ainda não temos. E tudo bem admitir — a beleza também está no mistério.

O que fica como lenda (e tudo bem)

Diplomata salvo na China, água dura de Northumberland “corrigida” com bergamota… Histórias que temperam a conversa. Eu gosto delas como folclore do chá: aquecem o coração e dão vontade de mais uma xícara.

Por que isso interessa até para quem não liga para chá

Porque é um caso perfeito de como marcas, cidades e pessoas constroem cultura. Não é só sobre o que está na xícara; é sobre como a xícara vira símbolo. O Earl Grey mostra que tradição é mistura de:
— um gosto que conquista,
— um lugar que empresta prestígio,
— e uma história que a gente adora repetir.

No fim das contas

Talvez a pergunta “quem criou?” seja menos saborosa do que como essa história foi sendo contada — nas vitrines de Piccadilly, nos salões de Londres, nas embalagens que viajaram o mundo. O Earl Grey virou símbolo porque muita gente bebeu, repetiu, amou. Jacksons e Twinings são personagens dessa trama. A autoria perfeita pode ficar sem assinatura; o encanto, esse permanece na xícara.

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