Entre as marcas centenárias de chá que admiro, a Kusmi Tea ocupa um lugar muito especial. Sua história começa na Rússia imperial, atravessa guerras e revoluções e se reinventa em Paris, onde permanece até hoje como um ícone de tradição e criatividade. É uma daquelas trajetórias que me inspiram profundamente — e que gosto de compartilhar aqui com vocês.
As origens em São Petersburgo
Tudo começou em 1867, quando Pavel Mikhailovich Kousmichoff, filho de uma família humilde, deixou sua aldeia para trabalhar com um comerciante de chá em São Petersburgo. Ele não apenas aprendeu a arte das misturas, mas ganhou como presente de casamento uma pequena casa de chá. Esse gesto foi a semente de uma marca que se tornaria lendária.
O chá dos czares
Já em 1880, a Kusmi conquistava os salões imperiais. Seus blends se tornaram os favoritos da corte russa, e um deles, o Bouquet of Flowers nº 108, criado em homenagem a Elisabeth, filha de Kousmichoff, permanece até hoje como uma de suas receitas mais emblemáticas. Sempre que leio sobre essa época, penso em como o chá pode ser um elo entre cultura, família e poder.
De São Petersburgo a Paris
No início do século XX, o filho mais velho, Viatcheslav Kousmichoff, ampliou a presença da marca, abrindo em 1907 a primeira filial em Londres, na Queen Victoria Street. Em poucos anos, a Kusmi já se espalhava por capitais como Nova York, Hamburgo e Constantinopla.
Mas foi em 1917, após a Revolução Russa, que a história tomou um novo rumo. A família foi obrigada a deixar sua terra natal e encontrou refúgio em Paris, na Avenue Niel. Foi ali que a Kusmi floresceu novamente, agora com um toque francês que permanece até hoje em sua identidade.
Anos difíceis e declínio
Após a Segunda Guerra Mundial, em 1946, Constantin Kousmichoff assumiu os negócios. Mais artista e amante do chá do que empresário, não conseguiu manter o ritmo da expansão, e a marca entrou em um período de declínio. É interessante notar como até grandes casas de chá passam por fases de quase esquecimento antes de renascerem.
O renascimento moderno
Essa virada aconteceu em 2003, quando os irmãos Sylvain e Claude Orebi adquiriram a Kusmi. Eles enxergaram na marca um verdadeiro tesouro e souberam trazê-la para o presente, sem perder o vínculo com o passado.
Alguns marcos merecem destaque:
- 2007 – lançamento da linha Wellbeing, com blends icônicos como Detox, BB Detox e Sweet Love.
- 2014 – a campanha The Beauty of Blends, que reposicionou a Kusmi no imaginário contemporâneo.
- 2017 – celebração dos 150 anos, com 85 lojas em 35 países e mais de 600 colaboradores.
Kusmi hoje
Em 2020, a Kusmi assumiu um compromisso definitivo com o futuro: tornou-se 100% orgânica e passou a usar apenas aromas naturais em suas misturas. Todas as criações são elaboradas e embaladas na Normandia, carregando o selo “Made in France”.
Hoje, a Kusmi se apresenta como uma marca inclusiva, vibrante e descomplicada. Suas latas coloridas já são objeto de design colecionável, e a filosofia da casa é clara: “every fruit is welcome, and everyone as well”.
Curiosidades que me encantam
- O Bouquet of Flowers nº 108 continua em produção desde 1880.
- Embora nascida na Rússia, a Kusmi é orgulhosamente francesa desde 1917.
- A marca preserva seu legado, mas não teme ousar em combinações improváveis, algo que a torna única no universo dos chás.
Um legado vivo
Ao olhar para a Kusmi Tea, vejo mais do que uma marca. Vejo uma história que atravessa fronteiras, guerras e gerações. Do chá dos czares ao espírito criativo francês, ela nos lembra que tradição e inovação podem caminhar lado a lado.
E é exatamente isso que me inspira a trazer histórias como essa: para mostrar que, em cada xícara de chá, pode haver um mundo inteiro de cultura e memória.