por Ana Delai – Outubro/2025

Buenos Aires tem um lugar muito especial no meu coração. É uma cidade que parece existir em várias camadas de tempo simultaneamente: a elegância clássica da Europa, a paixão vibrante da América Latina e um pulsar moderno que sempre me surpreende. Voltar, especialmente agora, na companhia de três amigas queridas, foi como reler um livro favorito e descobrir novos parágrafos maravilhosos.

Viajar com amigas tem um ritmo próprio, uma delícia particular. É sobre a cumplicidade nas descobertas, as risadas compartilhadas e a paciência mútua para esperar o clique perfeito. Nosso roteiro foi sensorial, focado em sentir a cidade, provar seus sabores e, claro, revisitar lugares que moldaram minha própria história.

Mais do que um guia, este é um diário das minhas impressões , um convite para sentir o que eu senti nos bairros charmosos de Palermo e no cenário cinematográfico de Puerto Madero.

O Ponto de Partida: A Emoção em Palermo e a Semente do Chá

Toda viagem tem um momento que serve como âncora emocional. Para mim, foi revisitar a Tealosophy, em Palermo. Confesso que meu coração bateu um pouco mais forte ao empurrar a porta.

Este lugar é um santuário do chá. A fundadora, a icônica Inés Berton—o “nariz” mais famoso do chá na Argentina—criou um universo. O aroma que nos recebe é uma mistura complexa e acolhedora de centenas de blends que repousam em latas coloridas, cobrindo as paredes do chão ao teto. A experiência é tátil, olfativa, visual. É um convite para explorar, para abrir as latas e mergulhar o nariz em novas possibilidades.

Foi exatamente em uma visita aqui, em 2017 (com o meu atual noivo Yan), que uma semente de inspiração foi plantada. Eu senti, de forma visceral, a vontade de trazer essa profundidade, essa cultura sensorial do chá, para o Brasil de uma forma autêntica. Foi ali que a ideia, o sonho, que eventualmente floresceu e se tornou a Catherine Fine Teas, realmente começou a tomar forma. Voltar ali, agora, foi fechar um ciclo lindo e me reconectar com o propósito.

A Beleza que Alimenta: Design, Livros e Atmosfera

Buenos Aires é uma cidade para estetas. Ela entende de beleza nos detalhes, e dois lugares que visitamos capturam isso com perfeição.

O primeiro foi a Casa Cavia. Eu já tinha ouvido falar, mas a experiência superou tudo. Imagine um casarão histórico dos anos 20, meticulosamente restaurado, que abriga em perfeita harmonia um restaurante sofisticado, uma livraria (com curadoria da Ampersand), um bar premiado e uma floricultura. É um oásis em Palermo Chico.

O que me encantou foi a sensação de estar em um espaço vivo, onde cada elemento—o design, os livros, o aroma das flores, a arquitetura—conversa entre si. Não é apenas um restaurante; é uma curadoria de bom gosto. Sentamos para tomar um drink e ficamos admirando a luz que entrava pelas janelas altas, o cuidado com a apresentação. É um daqueles lugares que nos inspira a buscar a beleza em todas as frentes.

E falando em beleza arquitetônica, precisávamos ir à El Ateneo Grand Splendid. Eu sei, é um clássico turístico, mas há clássicos que são obrigatórios por um motivo. A sensação de entrar em um teatro do início do século XX, com seus afrescos no teto, as cortinas de veludo no palco (que hoje é um café) e os camarotes transformados em pequenos nichos de leitura, é de tirar o fôlego.

Mais do que as fotos, o que me marcou foi o silêncio reverente. Mesmo lotada, há um respeito pelo espaço, pelo cheiro de papel antigo. É a celebração máxima do livro como objeto de arte, um ritual de cultura.

O Fogo Porteño: Da Tradição à Vanguarda

Não se vai a Buenos Aires sem se entregar ao ritual da carne. Mas o que eu amo na cena gastronômica de lá é como eles conseguem honrar a tradição da parrilla e, ao mesmo tempo, reinventá-la de formas excitantes.

Para a experiência clássica e autêntica, fomos ao Happening, na moderna Puerto Madero. É uma instituição. Um serviço impecável, sem afetação, e uma qualidade de carne que fala por si. Pedimos um ojo de bife que estava perfeito. O cenário é parte da experiência: as grandes janelas de vidro dão para os diques, criando um contraste lindo entre a comida tradicional e a arquitetura arrojada do bairro. É a sofisticação que vem da qualidade pura.

Para a descoberta , a “jovem exploradora” em mim estava ansiosa pelo Niño Gordo. E que experiência! Em Palermo, este restaurante de parrilla asiática fusion é um espetáculo sensorial desde a entrada. O ambiente é totalmente teatral: luzes vermelhas baixas, paredes cobertas de veludo e uma coleção incontável de bonecos e bugigangas asiáticas. É divertido, é descolado, é quase caótico—mas funciona.

Os sabores acompanham a proposta: é a carne argentina de primeira qualidade, mas tratada com técnicas e temperos asiáticos. Uma explosão de umami, picância e defumado. É o tipo de lugar que prova que a autenticidade também pode estar na fusão corajosa de ideias.

Em outra noite, buscamos algo que unisse o fogo ao aconchego, e encontramos o Republica del Fuego, nos Arcos Rosedal. O foco aqui é o cozimento na brasa de forma mais ampla, fogo de chão. O ambiente é rústico-chique, com muita madeira e tijolo aparente, incrivelmente acolhedor. O aroma de lenha queimando já nos abraça na entrada. Foi o jantar perfeito para relaxar, conversar e celebrar a viagem, um ritual de conforto.

Uma Dica (Que Já Está na Minha Próxima Lista)

Uma das melhores partes de viajar é trocar “achados”. Recebi uma recomendação que não consegui visitar desta vez, mas que já anotei com carinho para a próxima ida: o bar Tres Monos.

Pelo que pesquisei, é fascinante. Ele entrou na cobiçada lista dos 50 Melhores Bares do Mundo. A descrição é de um bar “dark and divey”, com uma pegada rock ‘n’ roll, mas que entrega coquetelaria de altíssimo nível, muito focada em ingredientes locais argentinos e criações autorais. Foge completamente do óbvio e parece ser o tipo de lugar com “alma” que eu adoro descobrir. Fica a dica compartilhada!

A Essência da Viagem

Voltei para casa com a mala cheia de inspirações e o coração aquecido. Buenos Aires, vista pelos olhos das minhas amigas e revisitada por mim, se mostrou mais uma vez uma cidade de profundidade.

É um lugar que nos lembra que a beleza pode estar tanto na grandiosidade de um teatro antigo quanto no detalhe de um coquetel bem executado. Uma cidade que, como o chá, revela suas melhores notas quando paramos para apreciar com calma, com todos os sentidos.