Há casas de chá que encantam pela história, outras pelo olhar contemporâneo — e algumas raras, como a Betjeman & Barton (1919), pela soma de tudo isso. O que mais me fascina aqui é a forma como tradição, narrativa e estética se entrelaçam em uma identidade que permanece viva, emotiva e refinada.

A lenda que dá o tom

Conta-se que Arthur Betjeman “caiu numa xícara de chá” ao nascer. Verdade ou licença poética, o fato é que o chá percorre sua história como destino. Parente do poeta Sir Betjeman, Arthur poderia ter seguido a literatura vitoriana; preferiu um caminho perfumado. Estudou a arte do chá em Dublin — cultivo, processamento, blending — e completou a formação em Londres, onde aprendeu tanto os silêncios quanto os aromas do chá.

Paris como escolha e linguagem

Fim dos anos 1910. Paris reaprende a viver após a Grande Guerra: jazz nos porões de Montmartre, salões literários, vitrines gourmand. Em uma estadia com a esposa e a filha Alix, Arthur se apaixona pela cidade e decide fincar raízes ali. Em 1919, abre sua primeira loja na rue de Suresnes: The English Tea House — discreta, elegante, com chás e mercearia fina inglesa. Na época, chá em Paris era item de armazéns; Arthur transforma esse hábito em butique.

Logo o sonho amplia-se: criar a loja mais londrina de Paris. Chegam as marmelades com casca generosa, puddings especiados, shortbreads, scones, molhos de menta, smoked salmon… Uma pequena adega no subsolo, boiseries, vidro, penumbra elegante. A reputação cresce: qualidade impecável, acolhimento discreto, um sopro de Mayfair no 8º arrondissement.

Encontro decisivo: nasce a maison

Em 1927, Arthur encontra Percy Barton. Primeiro diretor, depois sócio. Nasce a Betjeman & Barton: uma casa exigente, curiosa pela modernidade, atenta às transformações do mundo. Viajantes, estetas e personalidades britânicas que passavam por Paris sabiam o endereço — que, em 1965, muda-se para o 23 Boulevard Malesherbes, antiga floricultura que guarda até hoje uma aura de delicadeza.

Chá como história de família

Na Betjeman & Barton, o chá sempre foi assunto de família. Alix, ainda menina, enchia saquinhos à mão; Annie zelava pelos estoques; Arthur e Percy cruzavam oceanos atrás das melhores origens — Índia, Ceilão, China — mais que folhas, buscavam saberes ancestrais de mestres plantadores. Cada viagem rendia um lote singular, uma memória embalada com cuidado.

Após a morte de Arthur e Percy, em 1958, Alix assume ao lado de Annie e Doris. Nos anos 1970, surge Didier — apaixonado e oriundo de família do chá — que, a partir de 1986, conduz a casa a um novo capítulo.

A virada criativa

Paladares evoluem. O clássico Earl Grey continua nobre, mas o público sonha com criações autorais que contem histórias. Didier decide: a maison será referência em chás perfumados. Ele vai além do “uma nota, um aroma”: compõe blends camadas, indulgentes, poéticos. Nasce, por exemplo, o Eden Rose — um tributo íntimo: bergamota, lavanda, rosa, inspirado na esposa no roseiral banhado de luz e no cão Eden, testemunha silenciosa. Um poema em infusão.

Didier também introduz sachês — uma pequena revolução — sem concessões de qualidade. Grandes safras continuam apenas a granel, preservando folhas e expansão na água quente. O padrão encanta, e a maison passa a fornecer milhares de caixas inclusive para endereços londrinos de prestígio.

Katherine: a cenógrafa do chá

Nos anos 1980, entra em cena Katherine — presença carismática que transforma a loja num teatro de sensações. Vitrines premiadas, curadoria de porcela nas inglesas, ferro fundido japonês, acessórios raros. Com ela, o ritual se expande: o chá é contado, encenado, vivido. O mix migra de mercearia fresca para objetos e utensílios eleitos a dedo — inclusive bules excêntricos desenhados por Didier, produzidos em Yorkshire.

Expansão com alma

Chegam franquias (a primeira, em 1987, em Saint-Germain-en-Laye), depois Suíça, Holanda, Canadá; na França, Bordeaux, Nancy, Lille, Montpellier. Códigos visuais firmam-se: vermelho para perfumados, verde para clássicos, preto para coleções de exceção. Cada caixa conta uma história — muitas tornam-se colecionáveis, herdeiras das antigas caixas chinesas que Arthur trazia das viagens.

A nova era: Agnès Defontaine

Com a saída gradual de Didier, Agnès Defontaine assume a direção criativa e estratégica. Vinda do universo gourmet (Hédiard, Lenôtre, projetos com Alain Ducasse), ela moderniza sem romper: redesenha o logo, troca vermelho/verde por cinza-prateado elegante, cria a icônica “caixa cúpula” e, sob a batuta de Katherine, surge a alegre “baby bottle box”. Perfume e moda inspiram o ritmo: nomes poéticos, combinações inesperadas, terroirs raros, grands crus de jardins históricos e microlotes confidenciais — sem limites além da qualidade.

Em 2012, inaugura o primeiro tea bar (Boulevard des Filles du Calvaire): sala contemporânea para provar origens, safras, criações da casa, harmonizadas com bolos, biscuits e travel cakes. Agnès também leva o chá à alta gastronomia, criando menus com chefs como Jean-Luc Lefrançois, Éric Fréchon e Frédéric Vardon.

Continuidade e propósito

Em 2018, a maison é adquirida pela família Cluizel (referência em chocolate), união natural de valores: família, tradição, savoir-faire. Agnès segue à frente; Katherine, após três décadas, abre novos voos, mas permanece próxima, como inspiração. A maison acelera projetos sob três eixos: sob medida para hotelaria de exceção (4 e 5 estrelas), inovação responsável (sachês de amido de milho biodegradáveis), e compromisso social (apoio ao Café Joyeux, rede inclusiva que serve Betjeman & Barton nas xícaras).

Hoje, o time — do headquarter à loja e ao armazém — preserva uma atmosfera rara: exigência com leveza. Excelência que não se leva excessivamente a sério; um humor solar que aproxima pessoas e histórias.

Por que essa maison me inspira

Gosto de marcas que honram o passado sem congelá-lo. Na Betjeman & Barton, reconheço:

  • a fidelidade à curadoria de origem e ao artesanato do blend,
  • a coragem de inventar linguagens aromáticas (antes do mercado pedir),
  • a consciência de que estética é conteúdo quando traduz significado,
  • e a escolha de crescer preservando a alma — cada loja como embaixada viva do 23 Boulevard Malesherbes.

Mais de um século depois, a casa segue criando chás que falam à memória e à imaginação — como se cada lata listrada guardasse um pequeno romance. É esse encontro entre rigor, poesia e calor humano que me faz voltar, xícara em mãos, à mesma conclusão: algumas maisons não vendem apenas chá — transmitem um modo de sentir o mundo.