Por Ana Delai

Há chás que chegam antes da xícara. Eles entram pela memória — um perfume de casca cítrica, um eco floral, uma elegância discreta. O Earl Grey é assim. E, quanto mais mergulho na sua história, mais entendo por que ele resiste tão bem ao tempo: porque é feito de fatos sólidos e lendas deliciosas. Hoje, conto essa história do meu jeito — com o cuidado de separar uma coisa da outra — e acrescento como ele é bebido pelo mundo, preparos que funcionam e curiosidades que mostram por que esse clássico nunca sai de cena.

O que é, sem rodeios

“Earl Grey” é o nome dado ao chá preto aromatizado com óleo (ou essência) de bergamota.
A base varia conforme a casa de chá:

  • Keemun (Qimen, Anhui – China): elegante, levemente amadeirado.
  • Assam (Índia): corpo e notas maltadas.
  • Darjeeling (Índia): mais etéreo e floral.
  • Ceylon (Sri Lanka): brilho e limpeza na xícara.

Em cada base, a bergamota pousa de um jeito. O segredo é equilíbrio: a bergamota deve perfumar o chá, não dominá-lo.

Quem foi o Earl Grey (a pessoa por trás do nome)

O título homenageia Charles Grey, 2º Earl Grey, primeiro-ministro britânico de 1830 a 1834.
Seu governo consolidou reformas políticas profundas (Reform Act de 1832) e deu passos decisivos rumo à abolição da escravidão no Império Britânico (1833).
O que não temos: um manuscrito do conde com uma “receita original” de chá.

Antes do nome, já havia o perfume

Décadas antes de o termo “Earl Grey” circular, registros europeus do início do século XIX já descreviam chá perfumado com bergamota — às vezes como prática honesta de perfumaria, às vezes como “melhoria” discutível de qualidade.
Ou seja: o casamento entre chá preto e bergamota precede o batismo.

Quando o termo aparece

A expressão “Earl Grey tea” começa a surgir com segurança na imprensa do fim do século XIX e início do XX.
Não nasceu de decreto; nasceu do uso: comércio, salões, anúncios, conversas. É a cultura (e o consumo) consolidando um nome.

Londres, Piccadilly e as reivindicações

Personagens em cena:

  • Jacksons of Piccadilly: anúncios dos anos 1920 reivindicavam ter “introduzido” a mistura em 1836.
  • Twinings: mantém, há décadas, a ligação tradicional com a família Grey — narrativa que a própria família reforçou mais recentemente.

Conclusão honesta: não existe documento primário único, do século XIX, que encerre a disputa de autoria. O que existe são tradições de marca, anúncios históricos e memórias — parte viva da cultura do chá.

As lendas que adoramos repetir

  • O presente diplomático na China após o resgate de um mandarim.
  • A água “dura” de Northumberland “corrigida” com óleo de bergamota.

São histórias sedutoras. Eu as conto como folclore do chá: belas de ouvir, impossíveis de provar nos arquivos.

A bergamota que assina o aroma

O óleo essencial de bergamota que marcou a tradição do blend é associado, com razão, à Calábria (Itália).
Terroir, método de extração e “naturalidade” do óleo fazem enorme diferença no resultado.
Notas-chave: casca de laranja amarga, frescor cítrico, flor de laranjeira.

Bases que mudam a conversa

Keemun (China)
— Elegância, sutileza amadeirada, taninos finos. A bergamota pousa como luz filtrada.

Assam (Índia)
— Corpo e malte. Sustenta a bergamota com presença; conversa bem com leite para quem aprecia.

Darjeeling (Índia)
— Mais etéreo e floral. Bergamota em chave leve, aérea.

Ceylon (Sri Lanka)
— Brilho e limpeza na xícara. Final preciso e refrescante.

Em todas, o objetivo é o mesmo: clareza aromática e equilíbrio.

Onde e como o Earl Grey é consumido

Reino Unido & Commonwealth
— Presença clássica no afternoon tea. Costume de tomar puro ou com leite (especialmente com bases encorpadas como Assam/Ceylon). Horários: manhãs elegantes e pausas da tarde.

Europa continental
— França e Itália adotaram o Earl Grey tanto na xícara quanto na confeitaria (ganaches, tortas cítricas, sorbets). Cafés de especialidade usam o blend em xaropes para bebidas frias.

Américas
— Popular em versões geladas e no famoso London Fog (chá + leite vaporizado + toque de baunilha). No Brasil, cresce entre apreciadores de chás pretos aromatizados e no tea time de cafeterias.

Ásia
— Japão e Coreia abraçaram o Earl Grey em doces finos (pães de leite, roll cakes, panna cotta, macarons) e bebidas sazonais.

Preparo padrão (sem perder a leveza)

Quente — clássico e equilibrado

  • 2 a 3 g por 200 ml
  • 95 °C
  • 3 a 4 minutos
  • Servir puro; opcionalmente, adicionar leite após a infusão em bases encorpadas (preserva o cítrico da bergamota).

Gelado — duas rotas possíveis

  • Concentrado quente: dobre a dosagem, infunda curto, resfrie e finalize com gelo.
  • Cold brew: 6 a 8 horas em geladeira, extração macia e cítrica.

Com leite — conforto em dias frios

  • 4 g de Earl Grey para 200 ml de leite frio; aquecer até ~95 °C; desligar e infundir por 5 min; coar.
  • Textura cremosa, bergamota arredondada.

Curiosidades, receitas e preparos autorais

London Fog (em casa)
— Earl Grey + leite vaporizado + traço de baunilha. Doce na medida, aromático e acolhedor.

Na confeitaria
— Ganache de Earl Grey para tortas e bombons; crème pâtissière e curd cítrico infusionados; macarons de bergamota; panna cotta com xarope do chá.

Na coquetelaria
— Xarope simples (1:1) infusionado com Earl Grey para spritz, gin tônico e highballs cítricos; vodka ou gin infusionados a frio (4–6 h) para um perfil seco e perfumado.

Em bebidas fermentadas e sodas
— Kombucha de Earl Grey; limonadas e sodas com xarope do chá: brilho cítrico sem amargor.

Outros produtos que usam “Earl Grey” como assinatura

  • Chocolates e barras bean-to-bar (infusão na manteiga de cacau ou no creme).
  • Sorvetes, gelatos e cheesecakes (final cítrico-lácteo elegante).
  • Velas e difusores (“chá preto & bergamota” em fragrâncias de ambiente).
  • Sabonetes e cosméticos (nota fresca de bergamota com fundo de chá).

Dicas rápidas para um resultado impecável

  • Água: quanto mais fresca e pouco mineralizada, mais clara a bergamota aparece.
  • Xícara: porcelanas finas realçam aroma (paredes finas concentram o perfume).
  • Leite: se for adicionar ao chá já infundido, aqueça-o à parte; evite ferver na xícara.
  • Armazenamento: longe de luz/umidade; a bergamota “foge” de latas mal vedadas.

Mitos × Fatos (resumo honesto)

É “o chá mais vendido do mundo”?
— Não há medição global por blend (Earl Grey, English Breakfast etc.). Os dados setoriais olham tipos (preto, verde, oolong…). Dentro desse quadro, o chá preto é o maior bloco; o Earl Grey é um dos aromatizados mais famosos.

Quem criou?
— Existem reivindicações históricas (como as da Jacksons) e tradições (como a ligação da Twinings com a família Grey), mas não há um documento primário único, do século XIX, com autoria conclusiva.

O conde escreveu a receita?
— Não. O nome homenageia o título; a fórmula se consolidou por comércio e costume.

Linha do tempo em 5 batidas

  • 1820 (antes do nome): chá perfumado com bergamota já aparece em tratados europeus.
  • 1830–1834: governo do 2º Earl Grey; reformas históricas no Reino Unido.
  • Fim do séc. XIX / início do XX: “Earl Grey tea” circula na imprensa.
  • Década de 1920: anúncios londrinos reivindicam “introdução” do blend no século anterior.
  • Hoje: sem prova final de autoria; tradição viva, mundo afora.

Uma nota pessoal

Na Catherine Fine Teas, onde cultivo minha curiosidade e meu rigor como tea blender, nosso Earl Grey — com um sussurro de pétalas azuis — esgotou no último lote. Fico feliz quando um chá “vai embora” assim: sinal de que a história que contamos na xícara fez sentido.

Você gostaria de vê-lo de volta um dia? Conte como imagina esse retorno: mais cítrico? mais amadeirado? com ou sem pétalas? Eu leio tudo — e aprendo sempre.

Para salvar e compartilhar

Se esta leitura esclareceu algo (ou acendeu a vontade de sentir bergamota agora), salve para reler depois e compartilhe com quem ama chá. A cultura do chá cresce quando a gente conversa — com informação, respeito e um pouco de poesia.